O que sobra de uma ferida? Uma reflexão
No altar da vida, sempre temos um cálice a
beber. Um de júbilo, outro amargo. Entre os muitos sentimentos que gerenciam
nossa existência, certamente, o da ferida, ocupa um grande espaço no HD (disco
rígido) de nossa consciência, sentimentos e coração. Esta tríade é a primeira a
vislumbrar os efeitos imediatos da ferida. Como dói a consciência quando
ferimos ou somos feridos; como ficam desestruturados nossos sentimentos com a
ferida e como fica desiludido o coração com esta chaga, sobretudo, quando
sangra pela ofensa ou o não ser compreendido. Por isso, o ser humano no seu
hábitat não quer apenas ter a posteridade de um existir, mas viver com sentido.
Entendendo a metodologia da ferida, fica mais fácil chegar à meta com este
artigo. É comum se entender por ferida, o golpe mental ou emocional sofrido
pela sensibilidade, orgulho, reputação, dor, mágoa, injúria, ofensa, agravo,
assim atesta o Dicionário Aurélio. Por isso, todo o ser humano responde de
forma diferente a cada necessidade, inovando em si uma estrutura de
sobrevivência na trajetória histórica que lhe é oferecida enquanto vive.
Todavia, diante das dificuldades da vida, sempre temos altos e baixos a
enfrentar. No altar da vida, sempre temos um cálice a beber. Um de júbilo,
outro amargo. Quando se trata da ferida, essa pode ser o terreno onde Deus pode
edificar seu amor e misericórdia. Tratando-se do júbilo ou dor, o Onipotente
sabe nos condecorar com suas consolações.
Nossa intenção não é oferecer à ferida, uma
sedução de um algo extraordinário que precisamos passar para receber os bens do
Céu. Simplesmente, queremos mostrar que essa chaga nos ajuda a entender graus
tão sublimes e chegar a grandes conclusões de fidelidade ao Evangelho. Assim
sendo, acredito que muitos de nós, para não dizer todos, já tivemos este
sentimento nas mais variadas situações da vida, desde o desespero à aceitação,
dando luz ao amor e sacrifício, em Honra e Louvor ao que vivenciou as dores do
mundo inteiro, Jesus Cristo. Suas palavras postadas em fatos, parábolas e
acontecimentos vivenciam isso. Textos bíblicos asseveram essa verdade: “A
mulher adultera (Jo 8, 1-11); a cura dos leprosos (Jo 17, 11-19); o possesso
mudo (Mt 9, 32-43) e tantas outras provas bíblicas. Diante do influxo de
exemplos da Sagrada Escritura e, não obstante os eletrocardiogramas da vida,
não devemos nos reservar ao mérito, ao negativismo, à mediocridade e ao extremo
de dizer: “Deus se esqueceu de mim”. Diante desta realidade peço a você que
exercite a arte de nunca desanimar arquitetando o desejo de ser um alpinista
corajoso que não se detém no caminho para poder contemplar a beleza do céu no
mais alto do que você é em sua personalidade e caráter. A ferida nos ensina a
ser gente e a ver o outro igualmente.
Se por um lado vemos Jesus curando, por outro
vemos com singular glamour o Livro Sagrado, a Bíblia, o grande best-seller de
todos os tempos, impulsionando-nos a ver as feridas, e por meio delas, Jesus
entrando no coração de tanta gente, favorecendo-lhes, o perdão dos pecados (Lc
7, 36-50; 8, 2-3); a paciência em os restabelecer (Lc 21, 19; Rom 5, 3-4; Cor
6, 3-4; Gál 5, 22); quebrando o orgulho dos que dizem que não tem mais jeito
(Mt 23, 12; Lc 1, 51; Tg 4, 6. 16); ensinando com parábolas que é possível se
santificar por muito grande ou pequena que seja a nossa penalidade (Lc 16, 1-9;
Mt 18, 12-13; Lc 15, 11-32; Lc 17, 11-19), proporcionando condições de que,
para Deus, tudo é possível. Precisamos correr atrás da esperança. A utopia nos
leva a marchar. Cada um precisa ser promotor do seu próprio existir. A busca de
querer curar nossos descontentamentos nos preenche mais que a dor que eles nos
proporcionam. Sua vontade e garra já certificam que não importa o tempo que vai
perdurar a cura, o resultado está no primeiro passo que você dá. Deus já está
agindo em você. Sua misericórdia espera-o. Seus braços estão abertos para
acolhê-lo e suas palavras prontas para lhe dizer: “vinde benditos de meu Pai”
(Mt 25, 34). Quer biológicas, emocionais, ou espirituais, Deus entra no que lhe
incomoda com seu óleo Santo para curá-lo (a). Espero que você grave essas
palavras no seu coração. Em sua metodologia, Deus também entra pelas feridas.
Pensemos nisso.
Cônego Manuel Quitério de Azevedo
Colunista do Portal Ecclesia.
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